Segundo o técnico em meio ambiente do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Tarciley Gonçalves de São José, a história do soterramento é também um alerta sobre os impactos da ação humana na natureza.
"O principal motivo foi o desmatamento. Tecnicamente, é o que a gente defende. A restinga tem a função de estabilizar a areia. Quando essa vegetação foi retirada, o vento passou a transportar os sedimentos em direção à vila", explicou.
A educadora ambiental e pesquisadora Veratriz Souto Campos, que nasceu e foi criada em Itaúnas, conta que o avanço da areia foi gradual e durou cerca de 40 anos.
"Foi um processo lento. As pessoas retiravam um pouco da vegetação para fazer lenha, limpar um terreno ou realizar festas. Quando perceberam, já tinham retirado praticamente toda a cobertura vegetal. Em um terreno arenoso, isso tem um impacto muito maior", afirmou.
Antiga Vila de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo, foi engolida pela areia. Últimos moradores deixaram o local no início da década de 1970
Com a proteção natural reduzida, os fortes ventos da região passaram a transportar a areia em direção às construções.
"Imagine aquelas casas ficando cada vez mais vulneráveis aos ventos. Hoje temos mais de 30 metros de dunas sobre aquele lugar", destacou.
As explicações científicas convivem até hoje com as histórias contadas pelos antigos moradores. Segundo Veratriz, as lendas continuam presentes na memória da comunidade.
"Seu Caboquinho vai falar do mito, das pragas e da areia do buraco do bicho. Essas histórias permanecem vivas porque a gente continua recontando elas".
Debaixo da areia, milhares de anos de história
As dunas escondem não apenas a antiga vila, mas também parte importante da história dos povos que viveram na região muito antes da chegada dos colonizadores.
Veratriz desenvolve pesquisas arqueológicas no parque e explica que, dos 23 sítios arqueológicos identificados na unidade, 16 têm origem indígena.
"A arqueologia conta para nós períodos de mais de três mil anos atrás. É uma região de muita história. O parque abriga vestígios de ocupações humanas pré-históricas e do período colonial. Entre os materiais encontrados estão pedras lascadas, cerâmicas indígenas e outros artefatos que ajudam a reconstruir a história da região", ressaltou.
A relevância desse patrimônio ultrapassou as fronteiras do Espírito Santo. Em 1992, o Parque Estadual de Itaúnas foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.
Segundo ela, cinco dos sítios arqueológicos mais importantes estão justamente na área das dunas, onde ficava a antiga vila.
Ao longo das trilhas do parque também podem ser encontrados vestígios arqueológicos e ruínas históricas. Por isso, os visitantes são orientados a não recolher objetos ou materiais encontrados pelo caminho.
Natureza, cultura e turismo
Atualmente, o Parque Estadual de Itaúnas recebe cerca de 100 mil visitantes por ano. Os períodos de maior movimento são o verão, o Carnaval e o Festival Nacional do Forró de Itaúnas (Fenfit), realizado em julho.
Em dias de grande movimento, mais de 5 mil pessoas podem passar pelo parque.
Tarciley destacou que muitos turistas chegam atraídos pelas dunas e pelas praias, mas nem sempre percebem que estão dentro de uma unidade de conservação.
"A pessoa está entrando em contato com a natureza. Quanto menos impacto gerar, melhor para o meio ambiente. Esse contato também precisa trazer consciência e educação ambiental".
A área protegida reúne diferentes ecossistemas. O parque abriga a porção final do Rio Itaúnas, áreas alagadas com grande biodiversidade, manguezais, restingas e uma extensa faixa de praia que vai em direção à divisa com a Bahia.
Entre as espécies encontradas na unidade estão garças, jacarés, lontras, pacas, jaguatiricas e diversas plantas típicas da restinga, como caju e mangaba.
Cultura preservada
Além da riqueza ambiental, Itaúnas também é reconhecida pela força de suas manifestações culturais. Conhecida nacionalmente como a Capital do Forró Pé de Serra, a vila mantém tradições que misturam influências indígenas, quilombolas e da sabedoria popular capixaba.
Segundo Veratriz, o forró local nasceu das tradições do Sapê do Norte e recebeu influências de manifestações como o Ticumbi, o Congo e os bailes populares.
A unidade de conservação também participa da preservação dessas tradições, apoiando celebrações como a Festa de São Sebastião e São Benedito e ações ligadas ao Ticumbi.
O avanço da areia continua?
A movimentação das dunas continua sendo monitorada pelos órgãos ambientais. Segundo Tarciley, estudos acompanham constantemente a ação dos ventos e o deslocamento da areia.
Em 2014, foi realizado um plantio de espécies nativas de restinga para ajudar a estabilizar as dunas e evitar novos problemas.
"Hoje, é uma situação mais controlada. A vegetação conseguiu conter boa parte dessa areia", afirmou.
Serviço: Parque Estadual de Itaúnas
Fonte: noroeste news