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Fraude silenciosa: Uso criminoso de CPF faz cidadãos comuns virarem suspeitos de crimes financeiros

Publicado em: 06/04/2026

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Levantamento aponta que 2,6 milhões de contas apresentaram indícios de fraude em 2025; falhas na detecção facilitam a abertura de empresas e contas falsas.

O uso criminoso de CPFs de terceiros para a abertura de empresas e contas bancárias se tornou uma das principais engrenagens de quadrilhas especializadas em golpes financeiros no país. Um levantamento recente da Serasa Experian revela que, somente em 2025, cerca de 2,6 milhões de pessoas ou contas bancárias apresentaram indícios de uso fraudulento — um aumento expressivo de 62% em relação a 2023.

A prática, conhecida no meio policial como uso de “laranjas”, tem sido amplamente utilizada para ocultar a identidade dos verdadeiros criminosos e dificultar o rastreamento do dinheiro, especialmente em transações rápidas via Pix.

Como atuam as quadrilhas

Segundo especialistas em combate à fraude, o esquema começa com a obtenção ilegal de dados pessoais, muitas vezes adquiridos na deep web. Pacotes contendo informações como nome, CPF, RG e endereço são comercializados livremente em fóruns clandestinos.

De posse dessas informações, os criminosos falsificam documentos e passam a operar no sistema financeiro como se fossem as próprias vítimas. Com isso, eles conseguem abrir contas bancárias digitais, registrar empresas fictícias, solicitar empréstimos, emitir cartões de crédito e movimentar valores ilícitos.

De acordo com o diretor da Serasa, Leandro Bartolassi, essas contas funcionam como intermediárias cruciais nos golpes:

“Criam uma camada entre o criminoso e o destino final do dinheiro, dando aparência de legalidade e dificultando a investigação.”

Gargalo na detecção

Apesar da dimensão do problema, o estudo aponta uma falha crítica no sistema: apenas 3,2% dos casos suspeitos são efetivamente detectados pelas instituições financeiras. A baixa taxa de identificação está ligada à ausência de monitoramento contínuo e ao uso limitado de tecnologias de autenticação avançadas.

Para os investigadores, isso representa um grande desafio operacional. A lentidão e a dificuldade em identificar rapidamente as contas “laranjas” permitem que elas sejam reutilizadas em diversos crimes antes que qualquer bloqueio seja realizado.

Vítimas que viram suspeitas

Na prática, quem tem o CPF utilizado indevidamente pode enfrentar consequências graves — inclusive no âmbito criminal.

Um dos casos relatados envolve um vendedor de 27 anos que foi preso preventivamente no local de trabalho após uma conta bancária aberta em seu nome ser usada para receber dinheiro de golpes. Ele passou dois dias detido até que a polícia constatasse que ele também era uma vítima de fraude documental.

Já uma professora de 49 anos descobriu ser proprietária de uma empresa em outro estado, acumulando mais de R$ 600 mil em dívidas. Além das restrições de crédito, ela enfrentou processos judiciais e chegou a ter um imóvel ameaçado de leilão por conta das fraudes cometidas em seu nome. Em outro caso, um motorista de aplicativo identificou uma empresa aberta em seu CPF poucos meses após o registro, conseguindo agir a tempo de evitar a geração de dívidas.

Impacto psicológico e social

Além dos prejuízos financeiros evidentes, as vítimas relatam danos emocionais profundos. Vergonha, ansiedade e o medo constante de novas implicações legais são sentimentos recorrentes. Em alguns casos mais graves, há o afastamento do trabalho e a necessidade de acompanhamento psicológico.

Para as autoridades, esse tipo de crime amplia drasticamente o conceito de vítima, já que o titular do CPF passa a sofrer consequências diretas e punições sem ter qualquer participação no delito original.

Medidas de prevenção

Diante do avanço dessas fraudes, órgãos federais passaram a disponibilizar ferramentas gratuitas para a proteção preventiva dos cidadãos:

  • Abertura de empresas: A Receita Federal do Brasil permite bloquear preventivamente o uso do CPF na abertura de empresas por meio da plataforma Gov.br (RedeSim).

  • Abertura de contas: O Banco Central do Brasil lançou o sistema “BC Protege+”, que impede a abertura de novas contas bancárias sem a devida autorização do titular.

Especialistas em segurança digital recomendam ainda que a população monitore regularmente o extrato de seu CPF, ative a verificação em duas etapas em todos os serviços digitais e registre imediatamente um boletim de ocorrência ao menor sinal de irregularidade detectado.


Fonte: portal ponto 3