
Novos detalhes da Operação Recompensa, deflagrada nesta semana em Vila Velha, revelam um cenário de corrupção sistêmica envolvendo agentes da Guarda Municipal e advogados. Mensagens obtidas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), com autorização judicial, mostram o entusiasmo dos envolvidos com os pagamentos recebidos por monitorar passos da polícia e vazar dados sigilosos para uma das maiores facções do Estado.
Em uma das conversas interceptadas, uma advogada e um guarda municipal comemoram o sucesso de uma transação ilícita com a frase: “Estamos ricos!”. O diálogo é apenas uma das dezenas de provas que sustentam a acusação de organização criminosa e corrupção passiva.
O esquema funcionava como uma consultoria em tempo real para o tráfico. Os guardas municipais utilizavam o acesso aos sistemas restritos de segurança e às frequências de rádio para informar aos criminosos a localização exata das viaturas e o início de operações de cerco.
Um dos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) descreveu o funcionamento do grupo:
“Não era um vazamento eventual. Era uma prestação de serviço contínua. Os criminosos sabiam onde a polícia estava antes mesmo das viaturas chegarem aos bairros. A advogada atuava como o elo financeiro e logístico, garantindo que as informações chegassem aos líderes da facção e que o pagamento aos guardas fosse efetuado prontamente.”
As investigações mostram que os guardas enviavam fotos de telas de computadores com consultas a CPFs, placas de carros e mandados de prisão pendentes. Em troca, os valores eram depositados em contas de laranjas ou entregues em espécie.
“As mensagens revelam um total desprezo pela farda e pela vida dos colegas de profissão. Ao avisar sobre uma operação, esses agentes colocavam em risco a vida de policiais civis e militares que estavam nas ruas tentando combater o crime que eles mesmos ajudavam a proteger”, afirmou uma autoridade policial ligada ao caso.
A Prefeitura de Vila Velha reiterou que o afastamento dos guardas identificados já foi efetuado e que a Corregedoria Geral do município conduz um processo que deve culminar na demissão a bem do serviço público. A OAB-ES também analisa a conduta da advogada envolvida, que pode ter o registro profissional cassado.
A Operação Recompensa continua em fase de análise de dados, e o MPES acredita que o material apreendido nos celulares dos investigados pode levar a novos nomes de agentes públicos e advogados que participavam da rede de corrupção.