
Ao menos quatro mulheres foram resgatadas de um centro de recuperação para dependentes químicos no bairro Porto Dourado, na Serra, após denúncias de maus-tratos e falta de estrutura feitas por ex-internas, uma ex-funcionária e vizinhos da instituição.
Vídeos gravados no Centro Terapêutico Encontro com a Vida mostram o local desorganizado, com alimentos mal armazenados e utensílios sujos. O espaço foi fechado após agentes da Guarda Civil Municipal da Serra realizarem uma fiscalização no endereço na tarde desta terça-feira (3).
Segundo informações, a internação no local não era gratuita. As mensalidades giravam em torno de R$ 600, e a instituição também recebia doações da comunidade.
A ex-colaboradora do centro terapêutico, Michelle Oliveira, contou que foi até o local na segunda-feira (3) e encontrou as internas sozinhas. Segundo ela, uma das mulheres, uma idosa, estava amarrada a uma cadeira de rodas.
“Vi a geladeira vazia e percebi que não havia alimento para elas. Já eram 18h e ninguém tinha sido alimentado ou tomado banho”, relatou.
Michelle conseguiu retirar algumas mulheres do local e acionou a polícia.
Ex-internas, que preferiram não se identificar, afirmaram que não havia alimentação adequada nem limpeza regular na casa.
“Aquilo ali não é lugar de gente, é lugar de bicho”, relataram.
De acordo com vizinhos e também com relatos das ex-internas, apesar de funcionar como um centro de recuperação para dependentes químicos, as mulheres teriam acesso a drogas dentro da instituição.
“Droga entrava ali toda hora”, afirmou Jéssica, vizinha do projeto.
A Prefeitura da Serra informou que está apurando os fatos.
Já o pastor Egrinaldo de Jesus Santos, responsável pela Associação Encontro com a Vida, afirmou que acompanhava de perto o tratamento das internas, mas precisou deixar o estado há cerca de um mês por motivos de saúde e, por isso, não conseguiu prestar apoio ao local durante esse período.
Questionado sobre a existência de um responsável pela casa durante sua ausência, o pastor disse que a pessoa encarregada “deixou a desejar”.
Em nota enviada posteriormente, a associação afirmou reconhecer apontamentos feitos por órgãos competentes sobre a necessidade de adequações no local.
“Situação que foi acolhida com a devida seriedade”, informou a instituição.
Segundo a associação, o projeto é mantido por doações, ajuda de custo e trabalho voluntário, e tem como objetivo acolher mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades relacionadas ao uso de entorpecentes.
Ainda de acordo com a nota, o responsável pelo projeto enfrenta um problema de saúde crônico, o que teria comprometido o acompanhamento integral das atividades.
“Em razão desse quadro, não conseguiu entregar o trabalho que sempre buscou manter, o que lamenta profundamente.”
A associação informou também que as mulheres que estavam no imóvel já retornaram às suas respectivas famílias e que providências estão sendo tomadas para regularizar a situação do espaço.
“A Associação informa que as providências necessárias estão sendo tomadas para a regularização da situação, reafirmando seu compromisso de que toda atuação futura ocorra em condições dignas, seguras e regulares.”
Por fim, a instituição afirmou que não tem conhecimento de atos de violência ou de privação alimentar no local.
“As informações veiculadas publicamente a esse respeito não refletem a realidade vivenciada pela instituição”, concluiu a nota.